Por que ninguém está sorrindo? II

Por que ninguém está sorrindo?

Talvez seja só impressão.
Talvez tenha muita gente sorrindo, mas a gente não tem mais tempo ou sensibilidade pra reparar. Talvez os sorrisos estejam acontecendo em lugares que não frequentamos mais, ou em gestos que não valorizamos o suficiente. Ou talvez realmente tenha diminuído. Talvez o sorriso esteja se tornando raro não por falta de motivo, mas por excesso de distração. Porque enquanto a vida acontece, estamos todos ocupados tentando manter alguma pose, entregar o que esperam, sustentar escolhas antigas que já não dizem mais nada.

Tem gente que deixou de sorrir no exato dia em que começou a dar certo. Não é ironia, é fato. Às vezes, o caminho do sucesso é tão estreito que você se aperta inteiro pra caber. Corta arestas, ajusta discurso, engole dúvidas, veste o papel. E quando percebe, não tem mais espaço nem pra se mexer, muito menos pra se alegrar. O sucesso pode pesar mais do que o fracasso, especialmente quando ele vem acompanhado de renúncias mal digeridas.

Outros não sorriram nem quando estavam começando. Foram tão podados, tão cobrados, tão treinados pra seguir regras, que nem conseguiram descobrir do que gostam de verdade. Se você perguntar o que faz os olhos brilharem, a resposta não vem. Porque nem sempre houve espaço pra esse tipo de pergunta. Muita gente aprendeu a obedecer antes de aprender a sentir. E aí a vida virou cumprimento de tarefa. Corre, entrega, volta, dorme. Repete.

Talvez seja por isso que a ausência de sorriso incomoda tanto. Não é que as pessoas estejam tristes o tempo todo. É que parece faltar algo essencial, algo não dito, não vivido. Como se a vida estivesse passando no modo rascunho. Como se as decisões fossem tomadas por inércia, como se a presença estivesse ausente. E não adianta tentar compensar isso com frases otimistas, livros de autoajuda ou workshops de produtividade. O buraco é outro.

O sorriso volta quando a gente se reencontra. E isso pode acontecer em silêncio, em pausa, em mudança, em negação, em reencontro. Pode acontecer ao decidir dizer “não” pela primeira vez. Ou ao dizer “sim” de um jeito que faz sentido. Às vezes, ele volta no meio de um erro, de uma conversa, de uma lembrança. Ele aparece quando o que você vive tem gosto de verdade.

Não é simples. Não é garantido. Mas é possível. E se acontecer, mesmo que ninguém mais esteja sorrindo, vai ser o suficiente, porque será seu.

Porque comprar e ler o livro: Seja Fora do Normal

Para refletir e conversar (individual ou em grupo)

  1. Quando foi a última vez que você sorriu de verdade, sem esforço ou intenção de agradar? Lembra o motivo?
  2. O que você está fazendo hoje que te aproxima de quem você é, e o que está te afastando?
  3. Existe alguma parte da sua rotina que parece automática, mas que talvez precise de revisão?
  4. Que renúncias você fez ao longo do tempo para “dar certo”? Alguma delas ainda faz sentido?
  5. Quais escolhas você está sustentando apenas por medo de desapontar os outros?
  6. O que você fazia quando era mais jovem (ou livre) que te fazia sorrir sem pensar? Ainda faz parte da sua vida?
  7. O que teria coragem de começar, ou parar, se não estivesse tentando manter uma imagem de controle ou sucesso?
  8. Como seria sua vida se houvesse mais verdade no que você diz, no que você entrega, no que você sente?
  9. Com quem você consegue conversar sem precisar representar nada? E com quem você gostaria de ter essa liberdade?
  10. E se o sorriso voltasse… o que ele encontraria aí dentro?

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *